terça-feira, 1 de agosto de 2017

O gelo que veio do espaço!

Nelson Alberto Soares Travnik (*)
nelson-travnik@hotmail.com
Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum

Enormes pedras de gelo caem em Campinas e Itapira,SP, provocando estragos e sustos. Pelas suas proporções, evento ainda é um mistério.

É como se poderia chamar um fato insólito, único talvez no mundo, acontecido em Campinas e Itapira, SP, na manhã de 11 de julho de 1997. Um bloco de gelo pesando entre 200 a 300 kg caiu do espaço em um prédio da Montadora Mercedes Benz no Distrito Industrial, próximo a Rodovia Santos Dumont, causando um rombo de 1,5 X 2,0 metros em telha de amianto com 1 cm de espessura, estilhaçando e amassando uma porta de aço. Isso ocorreu com o céu completamente claro, típico de inverno, sem nuvens. As hipóteses de formação de bloco de gelo pela atmosfera em estrutura de aeronave voando acima de 6.000 metros de altitude foram descartadas por se tratar de uma formação com peso totalmente fora dos padrões conhecidos. Alguns pedaços recolhidos foram conservados em um freezer e enviados a UNICAMP. 

EM  ITAPIRA

Em 18 de julho, uma semana mais tarde, outro bloco de gelo estimado em 50/60 kg caiu no Sítio São Luiz, a 2 km ao sul da cidade de Itapira,SP, chegando a abrir um buraco de 25 centímetros de profundidade. A exemplo de Campinas, o céu estava completamente claro. As coordenadas dos dois locais e o ângulo de choque aproximadamente 30 graus no sentido leste-oeste verdadeiro, mostram uma origem comum. Segundo testemunhas, o bloco de gelo caiu numa velocidade extremamente alta causando ruído semelhante ao de um avião a jato. Felizmente 0,8 kg foram guardados em um saco plástico e conservados em um freezer para estudos na Casa de Agricultura de Itapira e posteriormente enviados a UNICAMP.

Pesquisadores nas áreas de meteorologia e astronomia foram unânimes em dizer que desconheciam até aquele momento esse tipo de fenômeno. As análises químicas feitas na UNICAMP – CEPAGRI – CENTRAL ANALÍTICA – INSTITUTO DE QUÍMICA, no CENA – USP de Piracicaba e posteriormente no prestigioso Sandia National Laboratory - USA, não acusaram nenhum traço de insetos e resíduos de vegetação que indicassem contaminação  terrestre. Convidado na ocasião como especialista na área de cometas, tendo já publicado um livro sobre o assunto, desde o inicio, examinando o material, optei serem os mesmos pedaços de um cometa, um ‘hidrometeorito cometário’, uma vez que o percentual de gelo nesses astros é muito grande e que vez por outra ocorre o esfacelamento do núcleo no espaço provocado pela fraca coesão dos seus componentes submetidos a temperaturas elevadas ao se aproximar do Sol e efeitos gravitacionais. Minha opinião partilhada por alguns colegas desta área, encontrou respaldo logo a seguir com a hipótese do físico Louis A. Frank da Universidade de Iowa - USA, segundo o qual, milhares de pedaços de gelo bombardeiam a Terra, quebrando-se em pedaços na alta atmosfera onde o gelo desintegra-se e se mistura as nuvens e cai em forma de chuva. 

A hipótese do físico americano não levada a serio pelos cientistas, viu-se comprovada posteriormente por câmaras sensíveis no ultravioleta a bordo de artefato espacial polar da NASA. Para Frank, esse bombardeio durante bilhões de anos pode ter formado os oceanos e até trazido carbono suficiente para dar inicio a vida na Terra. No caso de Campinas e Itapira, pedaços tão grandes de gelo que entraram  na alta atmosfera, submetidos a um desgaste muito grande, deveriam pesar no espaço várias toneladas! Nesse particular, o evento foge aos padrões conhecidos e ainda é motivo para melhores estudos e pesquisas. 

(*) Nelson Alberto Soares Travnik é diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum - SP e Membro Titular da Sociedade Astronômica da França.

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